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Solidão, uma condição da escrita


“Hoje eu quero sair só”, diz a música de Lenine. Pra mim, também vale ficar em casa sozinha, vale estar rodeada de gente, mas na minha, numa boa, curtindo o som de dentro, olhando discreta o mundo que se apresenta ao meu redor. Mas por que é tão importante esse espaço, esses momentos da gente com a gente mesmo? E por que é um espaço tão difícil de habitar?


Das poucas coisas que aprendi na vida, suportar a solidão foi uma delas. Confesso que ainda não cheguei no mais alto dos nirvanas e por muitas vezes a vontade é de espernear e gritar por uma companhia. Também, pudera! Grande parte de nossas vidas estamos em companhia de outras pessoas. Ao longo de infância, não temos capacidade de tomar conta de nós mesmos e a presença de adultos povoa nosso cotidiano.


A solidão aparece tímida, em momentos discretos, porém a sensação de que já já alguém se anuncia é constante. Na adolescência, esse estado de espírito nos toma de surpresa, muitos jovens apresentam sintomas depressivos, forçados a abandonar a infância que os joga em direção para a adultez. Crescer dói, literalmente. Lembra daquelas dores esquisitas nas coxas quando você tinha uns 11 anos? Era seu corpo esticando seus ossos, expandindo, ganhando espaço, te dando força, te dando condições de ser maior. Muitas vezes continuar pequeno traz vantagens, como não cuidar de si sozinhos...


A solidão, condição humana do adulto é formativa, agregadora da forma adulta de existência, é um ponto chave do processo de maturacional da vida. Segundo a filósofa e terapeuta Regina Favre, na solidão estamos a encontrar movimentos para existir. A solidão dá medo mas é a vida do adulto. A separação é própria do adulto. Não tem nada a ver com ter muita ou pouca gente em volta. Veja como você pode ir estabelecendo essa relação com você mesma. Essa relação consigo mesmo é que define a vida adulta.”


Estar sozinha é um estado de presença comigo mesma. Entro em contato com minhas questões de maneira mais refinada e consigo me ouvir melhor. Decido o que vou fazer e como vou fazer.

Nem sempre todas essas respostas são exatas ou me dão a sensação de total segurança. Pensar que algo dará errado é saber que terei de lidar com a culpa e o arrependimento, velhos conhecidos. Porém o estado de presença comigo mesma me recorda das muitas vezes em que 'deu certo' e por isso estou aqui agora - inclusive é por isso que escrevo esse texto.


Há os que diferenciem solidão e solitude, porém no dicionário os encontramos como sinônimos. Seja qual for sua escolha de palavra, desejo que habite esse encontro com você mesme afim de produzir espaço e experimentar a vida de maneira mais responsável e carinhosa. Abrir janelas de tempo para aprender, conseguir repousar sobre os pensamentos e ressoar os efeitos dos acontecimentos. O que acontece em mim? Como eu me comporto diante disso? O que quero fazer? Como irei agir diante disso? Aprender a se ouvir, sem ter que responder imediatamente ou correr em busca de companhia. E a partir daí, construir registros, dar vazão às palavras e construir sua estrada.






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